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Posts Tagged ‘Contador de histórias’

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Texto de Silviane Sasson

       As pequenas cidades do litoral podem ser muito especiais no inverno. Nas últimas férias pude aproveitar vários dias frios, porém azuis e ensolarados, numa praia de Santa Catarina, sul do Brasil, em companhia de meu marido e nossa filha Gabriela, de 4 anos. É a mesma praia que freqüentamos nos verões, de águas claras e tranquilas, mas pouca gente circula, a brisa é constante, as crianças vão à praia de roupa. Há um charme e uma calma que não existem no verão. O sol não castiga, ninguém se sente obrigado a passar o dia todo na areia e então sobra tempo pra muita coisa. Há tempo para uma boa refeição, preparada por toda a família. Há tempo para dormir fora de hora. Há tempo para ler.

      Apesar de cada dia ter sido diferente, acabamos criando uma rotina pela manhã cedo e outra no início da noite. Pela manhã, dávamos um longo passeio de bicicleta à beira mar. No início da noite, sentávamo-nos num Café em frente à praia para tomar um café ou chocolate quente, folhear revistas e ler para nossa filha alguns dos livros da pequena biblioteca, à disposição dos clientes do Café. Enquanto o chocolate quente era preparado, escolhíamos os livrinhos de contos de fadas clássicos. Eu lia os livros escolhidos e Gabriela acompanhava as ilustrações e o ritmo das histórias, fazendo comentários divertidos em suas passagens prediletas.

    Na terceira noite já havíamos lido todos os livrinhos infantis do Café, alguns mais de uma vez. Gabriela, então, resolveu que seria ela quem “leria” as historinhas para mim. Achei uma ótima idéia (apesar de ela ainda não saber ler). E assim foi naquela noite: escolhidos três livros, começou a “ler” as histórias para mim. Sem interromper ou corrigir deixei que ela “lesse”. Eu ainda não sabia que começaríamos naquele Café uma experiência muito especial.

     Com um tom narrativo e muitas vezes mudando o timbre de voz nos diálogos entre os personagens, minha filhinha acompanhava as ilustrações, “lendo” as aventuras que eram contadas a partir de sua privilegiada memória, aliada à criatividade e à imaginação que apenas crianças de pouca idade são capazes de ter. Muitos dos desfechos que eram tristes passaram a ser divertidos. Personagens que eram malvados se redimiam ao final em lugar de serem punidos. Os reinos ganhavam nomes e cores. Nos banquetes dos bailes eram servidas sobremesas de chocolate. Protagonistas ou palavras de alguma historinha eram inseridos de uma maneira super habilidosa em outra. O último livro daquela noite foi Ali Babá e os Quarenta Ladrões e Gabriela “leu” assim a parte em que Ali Babá descobre a caverna:

“Ali Babá passeava pelas montanhas quando viu um grupo de muitos homens em frente a uma caverna. Um dos homens, com jeito de chefe, parou na frente da caverna e disse “abra-cadabra-pelo-de-cabra!”– e então uma grande mágica aconteceu”.

  Naquele momento eu percebi que Gabriela estava mesmo “lendo”, partilhando histórias a partir das páginas dos livros e do significado de informações acumuladas em seus pouco mais de 4 anos. Era a mesma história, sob outra ótica, por outras palavras. Afinal, “abra-cadabra-pelo-de-cabra” é uma palavra tão mágica quanto “abre-te-sésamo”. E embora o texto original do livro não usasse a palavra mágica, o que significa caverna se abrindo além de um grande passe de mágica?

     No retorno das férias tivemos a sensação de que os livrinhos da biblioteca de casa se haviam multiplicado! Passamos a ler histórias já conhecidas juntas, mais de uma vez na mesma noite. Eu lia a versão original, Gabriela lia o livro a seu modo. Às vezes repetia exatamente o texto que havia escutado, como estivesse realmente lendo, letra por letra. Outras vezes dava à ilustração a interpretação que o desenho lhe transmitia. O final podia ser o tradicional ou outro, completamente inusitado!

     Passamos a fazer a mesma coisa com os livros trazidos semanalmente da biblioteca da escola e nossas sessões de leitura antes de dormir tornaram-se momentos únicos. Agora, a novidade é que invertemos a ordem da leitura quando a história é inédita: primeiro Gabrielinha vê a capa e contra-capa do livro, passa as páginas, observa as ilustrações e “lê” a história como imagina que seja. Em seguida eu leio o livro, ela acompanha as ilustrações e damos muitas gargalhadas ao comparar as versões do autor e a que ela “leu”. Se já sabíamos que uma história pode ser contada de muitas maneiras, aprendemos que o mesmo livro pode contar diferentes histórias. Basta que uma criança tenha em mãos um livrinho e uma boa companhia.

                    A Mãe da Gabriela

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A Freguesia do Livro nasceu de uma ideia inicialmente implantada na Sociedade Crescer, projeto de atendimento no contra-turno para crianças da Vila Zumbi, região metropolitana de Curitiba. Você pode saber mais dessa história aqui. Lá ficamos desde fevereiro/2011 e temos certeza de ter plantado algumas sementes e colhido alguns frutos. Muitas crianças se descobriram leitoras e todas elas tiveram a oportunidade de serem apresentadas ao mundo da literatura com o prazer e cuidado que ele merece. Essa biblioteca alcançou sua autonomia e agora, um ciclo se fecha e deixamos a Sociedade Crescer, esperando que a criançada aproveite os livros que constituem sua biblioteca.

Para celebrar o tempo em que estivemos lá, levamos o Engelbert Schlögel, que acredita firmemente no poder do voluntariado e viaja o mundo afora exercendo essa possibilidade que todos temos de fazer diferença na vida das pessoas. A última viagem foi para o Nepal, onde ele trabalhou por alguns meses em um berçário de elefantes, cuidando da Lumna, uma elefanta muito simpática. A aventura virou livro e foi dessa experiência que ele falou para as crianças da Vila Zumbi, fascinadas pela história, pelo elefante de pelúcia que acompanha Engelbert e do boneco articulado que o representa.

O livro. Informações aqui.

Engelbert foi até lá voluntariamente, deixou a criançada feliz e fechou com chave de ouro a nossa passagem por lá. Ao Engelbert, agradecemos por isso.

A Freguesia organiza ou ajuda a criar bibliotecas. Se tiver interesse, entre em contato.

* Fotos desse post foram feitas por Paolo Trippa, fotógrafo italiano de passagem pelo Brasil.

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A obra de Hélio Leites que veio morar na minha casa combina com nossa ligação com os livros.

Fui conquistada pelo “Rato de biblioteca”: um rato lendo, por trás dele uma escada que o leva à sabedoria. O rato mexe a cabecinha, ávido pelo livro (um mecanismo embaixo da caixa faz o ratinho mexer a cabeça). E aí Hélio pergunta: “Sabe por que o rato gosta desse livro? Porque é feito de queijo. Com criança é igualzinho. Você tem que dar o que ela gosta pra fazer ela se apaixonar pelo livro”. Sábio.

E já que a conversa é leitura, um vídeo feito aqui em Curitiba que fala desse apaixonante assunto.

Manual de leitura no ônibus | Vídeos | Gazeta do Povo.

Imagem frase inicial: daqui.

Post originalmente publicado em ArteAmiga.

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Energia. É o que a gente percebe na professora Nadzieja. Dá aulas em casa, prepara a moçada para concursos, cheia de estratégias infalíveis que anos e anos de magistério lhe ensinaram. Faz oficinas literárias na Fundação Cultural de Curitiba, tem textos publicados, outros sendo escritos e está aprendendo a restaurar livros.

E quer começar uma biblioteca na comunidade onde mora, no bairro Uberaba – Curitiba. Está arrecadando livros, cadastrando-os e se preparando para logo ocupar o espaço que a Associação Comunitária da Vila São Paulo vai ceder  com estantes e livros para a população da vizinhança que tinha aprendido a gostar de ler nos 15 anos de existência da Biblioteca Casa Kozác, fechada por motivos diversos.

A Freguesia levou livros. E pretende continuar levando, para que esse sonho de Nadzieja se torne realidade. Sua energia é contagiante e nós fomos irremediavelmente contaminados.

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Freguês. [Do lat. vulg. hispânico fili eclesiae, “filho da igreja” ] S. m. 1. Habitante de uma freguesia; paroquiano. 2. Aquele que compra ou vende habitualmente a determinada pessoa. 3. P. ext. Comprador, cliente. 4. Bras. Pop. Pessoa qualquer; indivíduo.  Fonte: Novo Dicionário Aurélio.

Queremos aumentar a freguesia dos livros, dos que doam e dos que recebem. Queremos aumentar o número de caixas de livros que disponibilizamos em locais improváveis (ou mesmo nos mais prováveis) por acreditar que mais e mais pessoas vão descobrir novas maneiras de pensar, refletir, questionar, comentar, sobre assuntos corriqueiros, banais ou mesmo assuntos nunca antes pensados ou imaginados.

Quando conversamos com alguém ou somos atendidos nos mais variados lugares e nos irritamos porque a pessoa não compreende o que dizemos ou mesmo porque o nosso interlocutor não sabe se expressar, culpamos o ensino, a televisão, os jogos eletrônicos, as horas no computador. Com certeza estes são fatores que influenciam na aquisição da  linguagem. Dependendo do uso, será uma linguagem mais aprimorada, ou não. Porém, será que não é tempo de refletir sobre o que cada um de nós pode fazer?    Ouvi uma pessoa contar que separava todo o lixo da sua casa até ver, em uma reportagem na televisão,  que alguns carrinheiros  jogavam parte do conteúdo dos seus carrinhos no rio Belém. Sendo assim, acreditando que o lixo não seria corretamente separado, muito menos reciclado, a pessoa resolveu abandonar o  trabalho de separar seu lixo doméstico !!…

Se uma pessoa tem condições de avaliar uma situação, por que não tentar dar um rumo positivo ao problema “aparentemente insolúvel” que surgiu? Mesmo que seja em pequena escala?

Incentivar as pessoas a ler pode ser um começo. Pensar nas suas atitudes também!

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Carlos topou na hora: quer ir contar histórias na biblioteca que montamos e acompanhamos há um ano na Vila Zumbi? Nem pensou duas vezes. Munido de seu guarda-chuva, alguns livros para doar para nosso espaço, lá veio ele, cheio de histórias para encantar a criançada. Em uma comunidade em que a leitura se apresenta pouco valorizada, temos nos esforçado para mostrar aos meninos e meninas que ler pode ser, antes de tudo, divertido. E Carlos nos ajudou nessa empreitada.

Lembramos que a biblioteca formada na Sociedade Crescer, na Vila Zumbi, região metropolitana de Curitiba, constitui-se toda de livros doados. Livros como os que esperamos que você nos doe para que possamos criar mais espaços como esse.

Carlos Daitschman é um contador de histórias que vale a pena conhecer. Se quiser que ele venha contar  histórias adequadas a públicos de qualquer idade: ocontadorde@hotmail.com

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