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Archive for julho \12\UTC 2013

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Texto de Silviane Sasson

       As pequenas cidades do litoral podem ser muito especiais no inverno. Nas últimas férias pude aproveitar vários dias frios, porém azuis e ensolarados, numa praia de Santa Catarina, sul do Brasil, em companhia de meu marido e nossa filha Gabriela, de 4 anos. É a mesma praia que freqüentamos nos verões, de águas claras e tranquilas, mas pouca gente circula, a brisa é constante, as crianças vão à praia de roupa. Há um charme e uma calma que não existem no verão. O sol não castiga, ninguém se sente obrigado a passar o dia todo na areia e então sobra tempo pra muita coisa. Há tempo para uma boa refeição, preparada por toda a família. Há tempo para dormir fora de hora. Há tempo para ler.

      Apesar de cada dia ter sido diferente, acabamos criando uma rotina pela manhã cedo e outra no início da noite. Pela manhã, dávamos um longo passeio de bicicleta à beira mar. No início da noite, sentávamo-nos num Café em frente à praia para tomar um café ou chocolate quente, folhear revistas e ler para nossa filha alguns dos livros da pequena biblioteca, à disposição dos clientes do Café. Enquanto o chocolate quente era preparado, escolhíamos os livrinhos de contos de fadas clássicos. Eu lia os livros escolhidos e Gabriela acompanhava as ilustrações e o ritmo das histórias, fazendo comentários divertidos em suas passagens prediletas.

    Na terceira noite já havíamos lido todos os livrinhos infantis do Café, alguns mais de uma vez. Gabriela, então, resolveu que seria ela quem “leria” as historinhas para mim. Achei uma ótima idéia (apesar de ela ainda não saber ler). E assim foi naquela noite: escolhidos três livros, começou a “ler” as histórias para mim. Sem interromper ou corrigir deixei que ela “lesse”. Eu ainda não sabia que começaríamos naquele Café uma experiência muito especial.

     Com um tom narrativo e muitas vezes mudando o timbre de voz nos diálogos entre os personagens, minha filhinha acompanhava as ilustrações, “lendo” as aventuras que eram contadas a partir de sua privilegiada memória, aliada à criatividade e à imaginação que apenas crianças de pouca idade são capazes de ter. Muitos dos desfechos que eram tristes passaram a ser divertidos. Personagens que eram malvados se redimiam ao final em lugar de serem punidos. Os reinos ganhavam nomes e cores. Nos banquetes dos bailes eram servidas sobremesas de chocolate. Protagonistas ou palavras de alguma historinha eram inseridos de uma maneira super habilidosa em outra. O último livro daquela noite foi Ali Babá e os Quarenta Ladrões e Gabriela “leu” assim a parte em que Ali Babá descobre a caverna:

“Ali Babá passeava pelas montanhas quando viu um grupo de muitos homens em frente a uma caverna. Um dos homens, com jeito de chefe, parou na frente da caverna e disse “abra-cadabra-pelo-de-cabra!”– e então uma grande mágica aconteceu”.

  Naquele momento eu percebi que Gabriela estava mesmo “lendo”, partilhando histórias a partir das páginas dos livros e do significado de informações acumuladas em seus pouco mais de 4 anos. Era a mesma história, sob outra ótica, por outras palavras. Afinal, “abra-cadabra-pelo-de-cabra” é uma palavra tão mágica quanto “abre-te-sésamo”. E embora o texto original do livro não usasse a palavra mágica, o que significa caverna se abrindo além de um grande passe de mágica?

     No retorno das férias tivemos a sensação de que os livrinhos da biblioteca de casa se haviam multiplicado! Passamos a ler histórias já conhecidas juntas, mais de uma vez na mesma noite. Eu lia a versão original, Gabriela lia o livro a seu modo. Às vezes repetia exatamente o texto que havia escutado, como estivesse realmente lendo, letra por letra. Outras vezes dava à ilustração a interpretação que o desenho lhe transmitia. O final podia ser o tradicional ou outro, completamente inusitado!

     Passamos a fazer a mesma coisa com os livros trazidos semanalmente da biblioteca da escola e nossas sessões de leitura antes de dormir tornaram-se momentos únicos. Agora, a novidade é que invertemos a ordem da leitura quando a história é inédita: primeiro Gabrielinha vê a capa e contra-capa do livro, passa as páginas, observa as ilustrações e “lê” a história como imagina que seja. Em seguida eu leio o livro, ela acompanha as ilustrações e damos muitas gargalhadas ao comparar as versões do autor e a que ela “leu”. Se já sabíamos que uma história pode ser contada de muitas maneiras, aprendemos que o mesmo livro pode contar diferentes histórias. Basta que uma criança tenha em mãos um livrinho e uma boa companhia.

                    A Mãe da Gabriela

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Texto de Fabrizio Manili

Era uma bela manhã de junho em Curitiba e o sol brincava de esconde-esconde com uma pequena nuvem manhosa.

O inverno se aproximava e Leo, meio entediado, naquele dia não tinha vontade de ir brincar com os amigos na praça. Preparou um belo pão com queijo, se deitou no sofá e começou a ler um livro sobre piratas. Marina, sua irmã, chegou na sala bocejando:

“O que está fazendo?” perguntou ao irmão.

“Lendo”,  responde Leo.

“E do que fala o livro”?

Os irmãos tinham isso em comum: gostavam de ler. Antes que Leo pudesse explicar a história, de repente, no silêncio da sala, se ouviu um lamento vindo de trás da grande estante de livros.

“Escutou isso”? perguntou Marina, ficando em pé em um salto. Leo confirmou com um movimento de cabeça, prestando atenção ao ruído.

“Tem alguém atrás dos livros! Estou com medo…”  falou Marina assustada.

Leo se aproximou lentamente à estante e tirou alguns livros do lugar.

“Sim, sim” – disse uma voz fraquinha de dentro de um livro vermelho – “Estou bem aqui dentro! Por favor, abram!”

Os dois irmãos tiraram o livro da estante e cuidadosamente o apoiaram no chão. Estava meio empoeirado e, depois de soprarem o pó, reconheceram a velha capa.

‘É o livro da história da Cinderela! – exclamou Marina – Lembra dele? Quando éramos pequenos, líamos essa história sempre, todos os dias!”

Leo abriu o livro e ouviu de novo aquela estranha voz:  “Adiante, adiante… mais adiante: devem ir à página 21…”

Dezoito, dezenove, vinte… vinte e um…

“Finalmente, me encontraram! Parabéns!” disse a pequena voz.

“Mas… mas… você, quem é?” – perguntou Marina.

“Sou a fada da Cinderela! Vocês não se lembram mais de mim? Verdade que faz tanto tempo desde a última vez que abriram esse livro…”

“O que acontece? – perguntou Leo – Por que se lamenta tanto?”

“Uma desgraça! – exclamou a voz da fada – Não consigo mais transformar a abóbora em carruagem! Cinderela deve ir ao baile no castelo para encontrar o Príncipe! Mas se não tiver a carruagem… Oh, céus! Não quero nem pensar o que pode acontecer. Que desgraça!”

“O que aconteceu com a abóbora?”- perguntou Marina.

“Oh! Eu não sei. Há algum tempo tenho visto que a palavra “abóbora” está se encolhendo cada vez mais. E com uma abóbora assim murchinha, a magia não funciona! Me ajudem, por favor! Senão, Cinderela não se casará com o Príncipe!”

“Uhm, talvez… Se a abóbora está murcha, está só precisando de um pouco de água fresca!”- raciocinou o menino.

Marina correu até a cozinha para buscar um copo d’água e um contagotas e voltou rápida para a sala. Encheu o contagotas e deixou que um pequeno pingo caísse sobre a palavra “ABÓBORA”. Os irmãos e a fada esperaram um pouco, mas…. nada: a abóbora continuava seca e murcha como antes.

“A água não funciona” – disse Leo tristonho, enquanto a fada começava a chorar de desespero.

“Precisamos procurar ajuda – declarou Marina – Vamos levar o livro para algum médico, farmacêutico, veterinário… Não sei! Alguém que possa ajudar a fada a transformar a abóbora em uma carruagem, para levar a Cinderela ao baile no castelo.”.

Leo e Marina pegaram o livro e sairam de casa. Procuraram ajuda durante o dia todo. Pediram ao médico, ao famacêutico, ao veterinário, ao florista, ao eletricista… mas nada! Ninguém conseguia resolver o problema.

Quando finalmente tinham perdido as esperanças de salvar a abóbora e a fábula da Cinderela, passaram diante de um loja muito diferente e colorida.

O lugar era cheio de caixas de madeira, daquelas que se usam para carregar frutas e verduras na feira. Todas as caixas estavam cheias de livros, de todo os tamanhos e cores. Leo levantou os olhos e leu a placa em cima da porta: Freguesia do Livro.

“Que lugar estranho”- disse Marina.

“É mesmo, bem estranho-  concordou Leo. – Mas aqui cuidam de livros: pode ser que saibam como fazer para não deixar a abóbora da Cinderela murchar e secar de vez. Vamos tentar!”

Os dois entraram meio inseguros. E viram, no fundo da loja repleta de livros, três mulheres que riam e cantavam.

“Que divertidas…  – disse Marina – parecem as três fadinhas da Bela Adormecida“.

“Não faça confusão, Marina. – disse Leo – Essa é uma outra história…”

Enquanto isso, uma das mulheres se aproximou com delicadeza. Tinha os cabelos escuros, um ar sereno e falava suavemente: “Olá, meninos, eu sou Ângela. O que acontece? O que precisam?”

“Bem… na verdade, nós…, não sabemos se…” Marina não sabia o que dizer, estava sem jeito de contar aquela história sobre palavras murchas e fadas desesperadas.

Nesse meio tempo entrou correndo na loja um garoto com um livro verde nas mãos. Entregou-o a uma moça loira e sorridente e lhe disse: “Esse é o meu livro da “Branca de Neve” do qual falei ontem. A maçã da bruxa está escura! Está apodrecendo!”

A moça tranquilizou o garotinho: “Não fique preocupado, deixe teu livro aqui que nós cuidamos dele. Vamos levá-lo a pessoas confiáveis”.

Logo depois entrou uma menina com um pequeno livro amarelo apertado entre os braços.. Ela chorava e disse entre soluços: “O conto de fadas… Chapeuzinho Vermelho… quando eu era pequenininha… não leio mais… mas agora… a cesta, o pãozinho para a vovó, está seco, cheio de mofo”!!

A moça loira acariciou a cabeça da menina e sorriu: “Fique tranquila, pequena. Você vai ver: vamos encontrar crianças que querem ler esse teu livro amarelo e o pão não vai mais secar. E a fábula vai voltar a ser o que era”.

A menina sorriu, enxugou as lágrimas  e saiu saltitando de alegria.

Leonardo chegou perto da moça, curioso: “Então… nós também temos um problema com o nosso livro da Cinderela”.

“Do que se trata”? perguntou ela.

“Acontece que a fada do livro não está conseguindo mais transformar com a sua magia a abóbora em carruagem, porque ela está seca e murcha. Tentamos regar com água a palavra “abóbora”, mas não adiantou nada.”

“Vejam bem, meus jovens – respondeu a moça – os livros, quando não são lidos por ninguém e ficam fechados cobrindo-se de pó em uma estante, murcham; suas palavras mofam, encolhem, somem. E as histórias não funcionam mais, não terminam ou terminam mal. As palavras não são regadas com água, mas sim com leitura”!

“E o que podemos fazer?”- quis saber Leo – “Estamos grandes e já lemos e relemos esse livro tantas vezes. Agora lemos outras coisas e não temos mais tempo nem vontade de reler esse aqui”.

“E – completou Marina – temos tantos outros livros como esse em casa, que não lemos há tanto tempo!”

A moça livreira respondeu: “Se vocês não leem os seus livros antigos, existem muitas outras pessoas, grandes e pequenas, que não os leram ainda e querem ler. E quando elas também não forem mais ler os livros, poderão presenteá-los a outros, e assim por diante…”

Leonardo e Marina saíram daquele lugar mágico pensando nos livros esquecidos e silenciosos que tinham em casa. Mesmo sem trocar uma palavra, ali tomaram uma decisão. Para que os livros continuem levando suas histórias, precisam viajar por outros olhos. Se olharam e sorriram: chega de palavras murchando em casa, vamos regá-los com leituras.

O texto acima é de Fabrizio Manili, escritor italiano. Traduzido livremente com autorização do autor por Josiane M. Bibas.

www.frabboscrivano.blogspot.com

Ilustração de Karin Jeanne: www.karinjeanne.com

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