Meu Deus, o que é aquilo no pé do garoto? Viagra! E o filho da puta pegou e mostrou para o pai, que me olhou com pena, com dó: tão jovem…Tive que dar explicações: – Hehe, é o Jair, que é do 103, psicanalista, amostra grátis, aí. Tem dois…Já ia dar uma explicação da experiência que tinha tido com o que não estava mais ali, mas achei que os pais não iriam ouvir de bom grado, diante das crianças. Viagra é a maior sujeira, posso te garantir. Acho que não convenci ninguém. Cris, com os alheios brincos na mão, escondeu o Viagra. Vexame total. Mas isso era só o começo da minha vida esparramada no chão de mármore.- A conta da compra do computador que eu dei para a minha irmã.- Duas pilhas Duracell que jamais saberemos se estão boas ou já usadas.Esse problema de pilhas soltas me enlouquece.- Sabe aquelas moedinhas de orelhão que não funcionam mais? Várias.
- Uma foto minha com a atriz Manoella Teixeira, abraçados na porta do Ritz
(isso foi há dois anos, fui logo explicando).
- Uma cartela de Lexotan, uma de Frontal e uma de Zoloft. Pronto, os vizinhos não teriam mais dúvidas. Um louco deprimido se aproximava.
- Quatro canetas Bic que eu duvido que ainda funcionem.
- Uma capinha de celular que eu comprei há uns quatro anos e não serviu.
- Uma caneta dessas de marcar texto, aquela amarela, sabe? Seca, é claro.
- Um tubo de Redoxon, vencido há várias gripes.
- Um lápis sem ponta; aliás, dois.
- Um papelzinho com um telefone que jamais saberemos de quem é.
- Outro papelzinho com um telefone (procurei tanto… Agora não vai mais adiantar).
- Um benjamim.
- Um tubo (suspeitíssimo) de Hipoglós.
- Mais uma cartelinha (quase vazia) de Frontal.
- Um disquete de computador sem nada escrito nele. O que pode ter aqui?
- Um par de óculos escuros que nunca foram meus.
- Umas cinco ou seis chaves que nunca saberei que portas abrir.
- Dois tubos de KY, que quem sabe o que é pode imaginar o meu ar de sem jeito. E o cara do 43 levava jeito de saber, pela olhadinha que deu para a esposa, que ficou vermelhinha. Ela devia gostar de KY.
- Um livrinho mandado (e escrito) por um leitor, com o nome Ser Gay é Ser Alegre. Como explicar isso, de joelhos?
- E, para encerrar o meu derrame, um papel em branco com um beijo de batom vermelho, bem no meio. Tentei dizer que era da minha afilhada, Maria Shirts, mas não colou.
Fui recolhendo aquilo tudo, aqueles pedaços da minha vida e colocando de novo dentro da gavetinha. E me levantei.
Entramos em silêncio no apartamento, eu certo de que ia começar uma nova vida ali. Mas logo cheguei à conclusão de que a gente nunca começa nada, a gente continua.
Ajeitei o criado-mudo ao lado da cama. Fiquei olhando para o indiscreto móvel que eu achava mudo.
Mas que, em dez segundos, contara cinco anos da minha vida.
Mário Prata